quarta-feira, 24 de março de 2010

Mais um bocadinho de cuspo, s.f.f.!

Recebi há dois dias o meu kit da Family Tree DNA (uma simpática cortesia deles). Vou ter de cuspir novamente num tubinho, desta vez para fazer a sequenciação total do ADN das minhas mitocôndrias (e não apenas de alguns SNP, ou variações pontuais, como já fiz).

Para estudar a nossa genealogia por via matrilinear directa, este é o derradeiro teste. Para além de identificar a ancestralidade materna “profunda” (deep ancestry) em termos étnicos e geográficos com uma precisão sem igual, se o meu ADN mitocondrial coincidir com o de outras pessoas na base de dados deles – que é actualmente a maior existente, dizem os seus responsáveis.

Isso significará, ainda segundo o site da ftdna,que essas pessoas e eu tivemos uma “avó” comum em tempos não muito remotos. E se for o caso, cada uma dessas pessoas e eu teremos a oportunidade de entrarmos em contacto.

Ainda não cuspi, mas quando o tiver feito e os resultados estiverem prontos voltarei ao assunto com os devidos pormenores.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Inuk e eu

No seu blogue The Spittoon, a 23andme dá-nos a oportunidade de compararmos alguns dos nossos SNP aos de Inuk, o homem que viveu há uns quatro mil anos na Gronelândia e que hoje se tornou oficialmente o primeiro humano antigo a ter o seu genoma quase totalmente sequenciado (ver o meu artigo no PÚBLICO de hoje e o texto do Spittoon ). Fui ver e comparei. O máximo!

Imagem: Inuk by Nuka Godfredsen/Nature

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Riscos de cancros revisitados

O Spittoon, o blogue da 23andme, refere um artigo na Nature Genetics da autoria de Gloria Petersen, da Mayo Clinic, e colegas, que aponta para vários locais do genoma que poderão estar associados ao risco de desenvolver cancro do pâncreas – talvez o mais letal de todos os cancros.

Randy Pausch (na foto), especialista de informática da Universidade de Carnegie-Mellon, morreu deste cancro há um ano e meio. (Lembram-se da sua célebre e comovedora “Última Palestra”?)

Fui tentar avaliar o meu risco, conforme as instruções expostas no blogue, olhando para três SNP (ou mutações pontuais) do meu genoma: rs9543325 (no cromossoma 13), rs3790844 (no cromossoma 1) e rs401681 (no cromossoma 5).

Os resultados são ambivalentes.

Em rs9543325, a minha configuração genética (CT), corresponde, segundo o estudo da Nature Genetics, a um risco 1,23 maior de contrair cancro do pâncreas do que se apresentasse a configuração mais comum (TT).

Em rs3790844, sou AG e isso reduz o meu risco (multiplicando o risco médio por 0,75).

E em rs401681 sou CC, ou seja apresento um risco típico – e inferior ao das pessoas que tem a configuração CT ou TT nesse local, e que também poderão ver, segundo estudos anteriores, aumentado o seu risco de melanoma e de cancro colorectal.

Mas mesmo este último SNP, apesar de a minha configuração ser aí aparentemente a melhor possível, é uma faca de dois gumes, uma vez que ter um ou dois C nesta posição já foi associado, também em estudos anteriores, a um risco acrescido de contrair outros cancros: epitelioma basal (um cancro “benigno” da pele –tiraram-me um há um ano); cancro do pulmão, da bexiga, da próstata (que não me diz respeito), do colo do útero e do endométrio (a parede interna do útero).

Chega!

(Imagem: DR)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Assédio genealógico

Os “assediadores genealógicos” são pessoas que encontram o nosso nome através de uma base de dados de genealogia online (cujo motor de pesquisa vasculha numa série de registos públicos), ficam convencidas de serem os nossos parentes distantes ou próximos e querem absolutamente saber quem somos e conhecer-nos melhor.

Uma das participantes numa mailing list à qual pertenço já viveu pessoalmente uma experiência dessas. Escrevia ela no outro dia que um genealogical stalker tinha encontrado o seu nome num conhecido site genealógico e que a seguir, tinha telefonado à mãe dela (suponho que para obter o seu número de telefone). O número da mãe, já agora, não vem na lista, o que mostra o nível de obsessão daquele desconhecido.

Arrepiante mas previsível, nao é?

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Falso alerta ao Alzheimer

A islandesa empresa deCODEme.com, actualmente em dificuldades financeiras, decidiu oferecer aos clientes da sua principal rival, a norte-americana 23andme, um lindo presente de Natal: a possibilidade de fazer upload para o seu site dos resultados genéticos (vindos da 23andme) e de beneficiar, poucas horas mais tarde, e absolutamente à borla, de uma análise (re)feita pela deCODEme. Que boa ideia, pensei. E aproveitei logo a oportunidade.

Aconteceram então duas coisas chatas. Primeiro, o meu haplogrupo mitocondrial (a linhagem materna) mudou radicalmente. Na 23andme sou H7, na deCODEme passei para K. Segundo, fiquei de repente com a possibilidade de conhecer (aparentemente, já explico porquê) o meu risco de vir um dia a ter a doença de Alzheimer.

No primeiro caso, recebi quase imediatamente um email da deCODEme a informar que tinha havido um erro na análise e a pedir desculpas pelo incómodo. Bastar-me-ia esperar uns dias para que tudo regressasse à normalidade. Já agora, acabei de ir ver e efectivamente, o meu haplogrupo mitocondrial reverteu para H (só H, o que é menos informativo que H7).

Quanto à segunda instância, estive vários dias a adiar a decisão; confesso que tinha medo de ver o resultado para o Alzheimer. E soube esta manhã que essa foi provavelmente a melhor opção – mas por uma razão inesperada: porque com os dados da 23andme, a deCODEme não consegue calcular esse risco.

Só que quem teve a audácia que eu não tive de ir ver, deparou-se nalguns casos com resultados assustadores... e falsos! (ver aqui). Em poucas palavras, o cálculo desse risco baseia-se na detecção de várias alterações num gene chamado APOE, e como a 23andme não as analisa todas, os dados da 23andme não são transponíveis neste caso, podendo mesmo conduzir a acentuar exageradamente o risco.

Entretanto, constatei que a avaliação desse risco tinha desaparecido da minha página pessoal na deCODEme.com. Mas até aqui, a empresa não pediu desculpas pelos sustos de morte que poderá ter causado, nem deu qualquer explicação ao respeito. Acho totalmente irresponsável.

Quanto a mim, apercebi-me que fiquei muito aliviada por não ter (ainda) acesso a este tipo de dados – e percebi que, na hora da verdade, é possível que não tenha a coragem de a conhecer (a verdade) em relação a certo tipo de doenças particularmente devastadoras. Li há pouco tempo um romance, intitulado Ainda Alice (Still Alice), de Lisa Genova (neurocientista norte-americana tornada escritora de ficção), publicado em Portugal pela Caderno, sobre um Alzheimer precoce. Até aí consigo aguentar a realidade – achei o livro fantástico –, mas mais ao perto tenho medo de me queimar as asas...

Imagem: Desenho de neurónios por Santiago Ramón y Cajal, 1899

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Inquietações

À medida que surgem novos resultados científicos, a 23andme vai actualizando a nossa informação genética à luz desses resultados sob forma de “relatórios clínicos”. O último desses relatórios até à data não me agrada nada.

Dizem-me que o meu risco genético de sofrer, ao longo da vida, uma coisa chamada fibrilhação auricular (FA) é superior à média (20,5 por cento contra 15,9 por cento na população geral). Estima-se que a componente hereditária da FA ronde os 60 por cento, ou seja, os genes pesam mais no risco do que os factores ambientais.

A FA em si não é nada de especial, a não ser que, como qualquer arritmia cardíaca, e sobretudo quando aliada a certos outros factores de risco (hipertensão, diabetes, etc.), faz aumentar o risco de tromboses. E isso é preocupante.

Alguns sintomas de FA: palpitações (costumo ter), falta de energia (quem lhe escapa?) Tudo isto não quer dizer que eu tenha AF, mas dá para pensar.

Uma das maneiras de reduzir o risco vascular é com medicamentos que tornam o sangue mais fluido, para impedir a formação de coágulos potencialmente perigosos quando surge a arritmia.

Um desses medicamentos chama-se warfarina – e um dos grandes problemas com a warfarina consiste em determinar a dose certa para cada pessoa. Se for administrada warfarina a mais haverá riscos de hemorragia interna; se for a menos, o tratamento não reduzirá o risco de AVC.

Ora, precisamente em relação à warfarina, a 23andme também me forneceu, há já uns tempos, informações sobre qual seria a minha reacção a este medicamento se tivesse por acaso de o tomar um dia. Mais uma vez, segundo os meus genes, sou aparentemente mais sensível do que a norma aos efeitos da warfarina – e portanto, as doses deverão ser mais baixas no meu caso.

Pela primeira vez desde que fiz o meu teste genético, sinto a necessidade de falar disto com o meu médico na próxima consulta. Será este o tão apregoado enpowerment em relação à nossa saúde e à prevenção das doenças que nos estão sempre a "vender" como sendo A grande promessa da genómica pessoal? Por enquanto, sinto-me sobretudo um pouco inquieta.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Uma boa notícia


Recebi, através de uma das mailing lists na qual participo, a seguinte mensagem, publicada no site da empresa Family Tree DNA, que transcrevo em inglês:

"An academic research team, including our chief mtDNA scientist Dr. Doron Behar, is collecting mtDNA haplogroup H full sequence results for a population study. The study will update the haplogroup H tree and provide information on the distribution of subclades. Every sample used will help the research team to develop and resolve the H haplogroup tree. Your mtDNA full sequence results qualify for possible inclusion in this study."

Ou seja: a equipa do investigador israelita Doron Behar vai finalmente começar a estudar em pormenor o haplogrupo mitocondrial (ou linhagem genética materna) ao qual pertenço, chamado H, e as suas subdivisões (o meu sub-haplogrupo é o H7, como já aqui disse). Finalmente!

Soube pela primeira do trabalho de Behar em 2006 (na altura no Rambam Medical Center em Haifa), quando publicou um espantoso artigo no American Journal of Human Genetics. Como já referi num post anterior, ele e os seus colegas descobriram, através da análise genética de um outro haplogrupo mitocondrial, chamado K, que, hoje, cerca de metade dos judeus ashkenazes (“alemães”) do mundo descendem de apenas quatro “mães fundadoras”, provavelmente hebreias e originárias do Médio Oriente, que terão vivido na Europa do Norte, naquilo que é hoje Alemanha, há mil a dois mil anos atrás.

Tudo indica que Behar, que como diz a mensagem acima citada é um dos responsáveis científicos da Family Tree DNA (www.familytreedna.com), decidiu que já existem suficientes dados vindos dos clientes dessa empresa para realizar um estudo do mesmo tipo sobre o haplogrupo H – e está a convidá-los a participar.

Penso que é um exemplo fantástico da forma como os cientistas podem utilizar os dados genéticos individuais (sem revelar publicamente a identidade das pessoas) para perceber melhor as rotas de migração das populações humanas ao longo dos milénios.

A mensagem a anunciar o novo estudo foi endereçada apenas aos que já fizeram uma sequenciação completa do seu ADN mitocondrial na FTDNA - e que pertencem ao haplogrupo mitocondrial H.

Como eu fiz o teste na 23andme (que não oferece este serviço) não irei participar pessoalmente no estudo. Mas fico em pulgas por saber o que os resultados irão revelar acerca do meu passado.

Imagem: Árvore do haplogrupo mitocondrial H - Fonte: familytreedna.com