segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Inquietações

À medida que surgem novos resultados científicos, a 23andme vai actualizando a nossa informação genética à luz desses resultados sob forma de “relatórios clínicos”. O último desses relatórios até à data não me agrada nada.

Dizem-me que o meu risco genético de sofrer, ao longo da vida, uma coisa chamada fibrilhação auricular (FA) é superior à média (20,5 por cento contra 15,9 por cento na população geral). Estima-se que a componente hereditária da FA ronde os 60 por cento, ou seja, os genes pesam mais no risco do que os factores ambientais.

A FA em si não é nada de especial, a não ser que, como qualquer arritmia cardíaca, e sobretudo quando aliada a certos outros factores de risco (hipertensão, diabetes, etc.), faz aumentar o risco de tromboses. E isso é preocupante.

Alguns sintomas de FA: palpitações (costumo ter), falta de energia (quem lhe escapa?) Tudo isto não quer dizer que eu tenha AF, mas dá para pensar.

Uma das maneiras de reduzir o risco vascular é com medicamentos que tornam o sangue mais fluido, para impedir a formação de coágulos potencialmente perigosos quando surge a arritmia.

Um desses medicamentos chama-se warfarina – e um dos grandes problemas com a warfarina consiste em determinar a dose certa para cada pessoa. Se for administrada warfarina a mais haverá riscos de hemorragia interna; se for a menos, o tratamento não reduzirá o risco de AVC.

Ora, precisamente em relação à warfarina, a 23andme também me forneceu, há já uns tempos, informações sobre qual seria a minha reacção a este medicamento se tivesse por acaso de o tomar um dia. Mais uma vez, segundo os meus genes, sou aparentemente mais sensível do que a norma aos efeitos da warfarina – e portanto, as doses deverão ser mais baixas no meu caso.

Pela primeira vez desde que fiz o meu teste genético, sinto a necessidade de falar disto com o meu médico na próxima consulta. Será este o tão apregoado enpowerment em relação à nossa saúde e à prevenção das doenças que nos estão sempre a "vender" como sendo A grande promessa da genómica pessoal? Por enquanto, sinto-me sobretudo um pouco inquieta.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Uma boa notícia


Recebi, através de uma das mailing lists na qual participo, a seguinte mensagem, publicada no site da empresa Family Tree DNA, que transcrevo em inglês:

"An academic research team, including our chief mtDNA scientist Dr. Doron Behar, is collecting mtDNA haplogroup H full sequence results for a population study. The study will update the haplogroup H tree and provide information on the distribution of subclades. Every sample used will help the research team to develop and resolve the H haplogroup tree. Your mtDNA full sequence results qualify for possible inclusion in this study."

Ou seja: a equipa do investigador israelita Doron Behar vai finalmente começar a estudar em pormenor o haplogrupo mitocondrial (ou linhagem genética materna) ao qual pertenço, chamado H, e as suas subdivisões (o meu sub-haplogrupo é o H7, como já aqui disse). Finalmente!

Soube pela primeira do trabalho de Behar em 2006 (na altura no Rambam Medical Center em Haifa), quando publicou um espantoso artigo no American Journal of Human Genetics. Como já referi num post anterior, ele e os seus colegas descobriram, através da análise genética de um outro haplogrupo mitocondrial, chamado K, que, hoje, cerca de metade dos judeus ashkenazes (“alemães”) do mundo descendem de apenas quatro “mães fundadoras”, provavelmente hebreias e originárias do Médio Oriente, que terão vivido na Europa do Norte, naquilo que é hoje Alemanha, há mil a dois mil anos atrás.

Tudo indica que Behar, que como diz a mensagem acima citada é um dos responsáveis científicos da Family Tree DNA (www.familytreedna.com), decidiu que já existem suficientes dados vindos dos clientes dessa empresa para realizar um estudo do mesmo tipo sobre o haplogrupo H – e está a convidá-los a participar.

Penso que é um exemplo fantástico da forma como os cientistas podem utilizar os dados genéticos individuais (sem revelar publicamente a identidade das pessoas) para perceber melhor as rotas de migração das populações humanas ao longo dos milénios.

A mensagem a anunciar o novo estudo foi endereçada apenas aos que já fizeram uma sequenciação completa do seu ADN mitocondrial na FTDNA - e que pertencem ao haplogrupo mitocondrial H.

Como eu fiz o teste na 23andme (que não oferece este serviço) não irei participar pessoalmente no estudo. Mas fico em pulgas por saber o que os resultados irão revelar acerca do meu passado.

Imagem: Árvore do haplogrupo mitocondrial H - Fonte: familytreedna.com

segunda-feira, 20 de Julho de 2009

Haplogrupo paterno: I

O meu irmão acabou por fazer o teste do cromossoma Y para determinar as características dos nossos antepassados por via patrilinear directa (e fico-lhe muito agradecida por isso). A resposta, dada há uns dias pela GenoMed, em Lisboa, que realizou a análise genética, foi: haplogrupo I (caracterizado por uma mutação designada M170).

Lê-se no site da Genomed

Os primeiros povos pertencentes ao grupo I tiveram origem no sul da Europa, imediatamente antes da última glaciação. Os seus antepassados chegaram à Europa por uma rota migratória desde o Médio Oriente até a região actual dos Balcãs. (...) Durante o período glaciar (20-12 mil anos) estes povos ficaram confinados em refúgios climatéricos, localizados predominantemente nas margens do Mar Morto e nos Balcãs. Mais tarde, com a melhoria das condições climatéricas, (...) foram assim recolonizando e deixando descendência por toda a Europa.

E a seguir:

Actualmente, o grupo I representa cerca de um quinto do fundo genético Europeu. (...) as linhagens I predominam na região da Escandinávia e dos Balcãs. As frequências mais elevadas (cerca de 40%) detectam-se nas populações da Herzegovina, Croácia, Bósnia, Sardanha e Escandinávia.

No fim:

O grupo genético I não está habitualmente associado a ancestralidade judaica.

Esta frase evocou logo para mim uma memorável cena do clássico filme Annie Hall de Woody Allen, em que o protagonista, Alvy Singer, num flashback para a sua infância, comenta: “A minha avó nunca dava presentes. Estava demasiado ocupada a ser violada pelos Cossacos.”

Desculpem os que se sentem chocados por esta piada de mau gosto, politicamente incorrecta, etc., etc. A verdade é que aquilo com que Allen brinca naquela frase corresponde sem dúvida à trágica realidade vivida por muitas famílias judias durante os sangrentos pogroms, na Ucrânia e Polónia, do século XIX e inícios do século XX (e que obrigaram à emigração de tantos judeus para as Américas).

Tanto quanto sei, isso não aconteceu, felizmente, a nenhuma das minhas avós nem bisavós, nem trisavós – mas antes disso, não posso garantir nada.

Os genes da minha família poderão assim estar a confirmar uma história de perseguição e violência.

Imagem: DNA Root Tester

sexta-feira, 26 de Junho de 2009

O problema da partilha total dos dados genéticos


Participo numa mailing list de genética e recebi pedidos de outros participantes que me pedem que lhes envie a minha informação genética “bruta” de alguns dos meus cromossomas (ou seja, a sequência de letras lidas quando fiz o meu teste genético).

Muita gente está interessada nisto, uma vez que certas comparações só podem ser feitas através de softwares ad hoc. Há um grande número de geneticistas amadores por essa Web fora – e alguns deles desenvolveram programinhas mais ou menos fáceis de usar para extrair informação do genoma – e em particular para comparar pessoas que não passaram pela mesma empresa para realizar os seus testes.

Confesso que tenho ignorado estes convites/pedidos. Confesso que a ideia de que parte ou a totalidade do meu genoma (ou mais precisamente, uma parte ou a totalidade das 550 mil letras do meu ADN que foram lidos pela 23andme quando fiz o teste genético) ande a circular por aí, sem eu saber exactamente onde, dá-me alguns arrepios.

Há uns dias, porém, enviei de facto por email toda a minha informação em bruto (à qual tenho acesso) porque vou participar num projecto científico que acho muito interessante. Mas quando, durante um instante, pensei que me tinha enganado no endereço de email e enviado os meus dados para todos os participantes da dita mailing list, fiquei angustiadíssima. Felizmente, foi um falso alarme…

Num artigo, há uns meses no New York Times, o conhecido cientista Steven Pinker perguntava-se justamente quais poderiam ser as consequências de publicar o seu genoma (e no caso dele, todo o genoma mesmo, pois ele é um dos primeiros participantes num projecto de sequenciação total).

A sua resposta resumia-se a isto: se uma seguradora ou qualquer outra entidade quisesse penetrar no segredo dos nossos genes para tirar ilações sobre as nossas características individuais, estaria condenada ao fracasso. Os genes fornecem informação essencialmente estatística, que se aplicam a grupos de pessoas. E, salvo em raras excepções, a sua contribuição para cada doença ou traço físico ou psicológico é quase inextricável.

Muitos dos receios levantados pela genómica pessoal ignoram simplesmente a realidade complexa e probabilística dos genes”, escreve Pinker. “Esqueçam (…) as empresas de tipo “Gattaca” [alusão ao filme do mesmo nome] que lêem o ADN das pessoas para as distribuir por diversas castas, os empregadores ou pretendentes que penetram no nosso genoma para ver que tipo de trabalhador ou de cônjuge faríamos. Deixem-nos tentar: estão a perder o seu tempo.

Isso é verdade na maioria dos casos. Mas o que dizer de certas doenças genéticas graves e devidas a um único gene, para os quais uma seguradora, por exemplo, poderia rapidamente determinar a nossa propensão e recusar-nos uma apólice – ou um potencial empregador negar-se a contratar-nos? Mesmo aquele bocadinho de ADN que está nas mitocôndrias das células, e que serve para determinar a ancestralidade por via matrilinear, contém genes de doenças – alguns dos quais ainda não identificados.

Quando fiz o meu teste genético e escrevi sobre os resultados, sabia que poderia vir a desvendar coisas que poderiam um dia “ser utilizadas contra mim”, num cenário muito pessimista, uma vez que a exploração de dados genéticos por terceiros quase não está regulamentada. Decidi correr esse risco porque a minha curiosidade era maior do que o meu medo do hipotético perigo envolvido – e porque achava que era importante escrever sobre o tema.

No caso do projecto científico em que disse que vou participar – e que está ser desenvolvido por investigadores de Harvard – tenho a garantia de que os responsáveis são idóneos. Vão utilizar a minha informação, juntamente com a de muitos outros, para desvendar os mistérios da ancestralidade de uma população no seu conjunto (já falarei deste projecto noutra altura), mas sem revelar a ninguém (a não ser a mim) quaisquer traços individuais do meu genoma. Tive de assinar vários formulários de consentimento da minha parte onde eles especificam por extenso, do seu lado, o que podem e não podem fazer com a minha informação genética.

Já não é de todo a mesma coisa difundir de maneira informal a minha sopa de letras, que pode incluir informação relevante do ponto de vista médico. Como sabemos, a informação pode espalhar-se como um vírus na Internet e acabar por cair nas mãos erradas. Tenho a certeza de que as pessoas que me pedem para lhes enviar este ou outro cromossoma o fazem com as melhores intenções do mundo, não é isso que está em causa. Mas sinto que se aceitar, deixarei de ter o controlo sobre a minha informação genética. E por enquanto, apesar dos riscos serem muito remotos (nisso concordo com Pinker) esse é um passo que não ainda estou disposta a dar.

Crédito fotográfico: Dollar Bin/Flickr

segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Um programinha interessante

O EURO-DNA-CALC é um software que permite, a partir dos dados genéticos fornecidos quer pela 23andme, quer por uma empresa concorrente, a islandesa deCODEme, calcular a mistura de “europeu do noroeste, europeu do sudeste e de judeu ashkenazi” que uma pessoa de origem europeia tem nos genes.

Não foi imediato perceber como funcionava a coisa. Para fazer download do programa, vai-se ao blogue de antropologia de Dienekes Pontikos, o seu inventor – mais precisamente aqui.

Os cálculos são feitos com base nos dados de um estudo de Alkes Price, de Harvard, e colegas, intitulado Discerning the ancestry of European Americans in genetic association studies e publicado em 2008 na PLoS Genetics.

Aí, os autores definem os europeus do noroeste como sendo originários da Suécia, Reino Unido e Polónia, enquanto os europeus do sudeste provêm da Grécia, Itália e Espanha (esticando um pouco a Rosa dos Ventos). Os judeus ashkenazi são, grosso modo, originários da região que inclui a actual Alemanha.

Depois, lê-se o README.txt e fica-se a saber que é preciso ir buscar um outro software que permitirá fazer o cálculo estátistico para estimar as respectivas contribuções daquelas três populações ancestrais ao nosso genoma. Foi essa a parte que demorei a desvendar... Mas acabei por conseguir, porque está tudo lá escrito, basta ler com atenção.

Descarregam-se então os dados da análise genética para um ficheiro (ambas as empresas acima referidas possuem essa funcionalidade), aplica-se-lhes o software conforme as instruções e sai este queijo (no meu caso):

E esta legenda:
> EuroDNACalc("23andme")
[1] "NORTHWEST EURO: Maximum Likelihood Estimate=17% Interval=[0, 34]"
[1] "SOUTHEAST EURO: Maximum Likelihood Estimate=0% Interval=[0, 36]"
[1] "ASHKENAZI JEWISH: Maximum Likelihood Estimate=83% Interval=[61, 100]"

Não faço ideia da validade científica do resultado e quanto à utilidade não me parece não ser grande, mas cá está.

quinta-feira, 11 de Junho de 2009

E os sete finalistas são…

outros.

Não fui seleccionada para a final do Prémio 3QD de Ciência 2009, apesar de o meu post ter sido o segundo mais votado pelo público.

Agradeço imenso a todos os que votaram em mim!

terça-feira, 9 de Junho de 2009

Livros de um mundo perdido

Encomendei há uns dias dois livros que têm a ver com a aldeia de Derazhnia, na Ucrânia, onde nasceu em 1895 a minha avó paterna, Mania Rosenblatt.

Ali, os nazis massacraram toda a população judia – cerca de 4000 pessoas. Hoje, só restam algumas casas típicas dos judeus daquele mundo perdido – e uma espécie de pirâmide de pedra a marcar o local, no meio da vegetação, do massacre em massa e da fossa comum para onde os corpos de mulheres, homens, crianças, foram atirados e empilhados depois de serem abatidos a tiro – alguns deles ainda vivos.

Um desses livros, The Road from Letichev - The history and culture of a forgotten Jewish community in Eastern Europe, de David A. Chapin e Ben Weinstock, é um relato pormenorizado, em dois volumes, quase família a família, dos habitantes judeus daquela zona.

Também encomendei uma recolha de contos pelo autor iídiche Sholem Aleichem (Tevye's Daughters: Collected Stories of Sholom Aleichem) entre os quais há um, intitulado, O Alemão, cuja acção decorre em Derazhnia (que tinha uma importante estação de caminho-de-ferro).

Por último, e noutro registo, um livro intitulado Maurice Rosenblatt and the Fall of Joseph McCarthy, da autoria do jornalista Shelby Scates, do Seattle Post Intelligencer. Já contarei aqui um dia destes o que tenho eu a ver com Maurice Rosenblatt, grande lobbyista norte-americano que precipitou a queda do macarthismo.

Crédito fotográfico: Alexandra Laignel-Lavastine